Caros amigos,
Hoje inicio com um comentário, inspirado no pensador francês Lyotard e - Uma fábula pós-moderna - . Como estariam o Humano e o seu Cérebro, ou melhor, o Cérebro e seu Humano, no momento em que abandonavam o planeta para sempre, antes de sua destruição, isso, a história não dizia. E continua: Assim termina a fábula que vamos ouvir. O sol vai explodir. Todo o sistema solar, inclusive o pequeno planeta Terra, transforma-se numa grande nova. Quatro bilhões e meio de anos solares desde o momento em que essa fábula foi contada.
No último do blog há um parágrafo em que concluo assim, após citar vários cientistas importantes:. Esses são pensadores extraordinários que, ainda hoje, são muito importantes para o nosso pensamento, mas de alguma forma, prefiro ficar com Paul Ricoeur quando afirma que: cada autor fala em um tempo, para um tempo.
A nova descoberta da NASA sobre a bactéria confirma Ricoeur e os cientistas contemporâneos já respiram mais aliviados quanto à possibilidade de haver mais possibilidades de vida, ainda que de outras formas, quando procederem ao abandono da Terra.
Possivelmente Prigogine, Rorty, Heisenberg, Bohm, Daniel Bell teriam dificuldade na construção desse acontecimento - a notícia da NASA – que, no mínimo, cria novas possibilidades de compreender a vida na Terra e a Terra e aponta para o fato de que os autores com quem trabalho estão sinergeticamente afinados com os novos tempos. Explicar a vida ou descrevê-la tem a ver, suponho, com relações de tempo e existência.
Para não imaginarem que estou soturno falarei hoje a partir de uma visão alegórica que a educadora Francisca Barros prefere chamar de erótica.
Sobre grandes cidades e
noites pequenas
Toda noite as cidades mudam de cara, como que travestidas em um muito de indefinido, principalmente se é noite de sexta feira ou sábado e os compromissos inadiáveis, quase sempre, possam ser adiados até a próxima segunda.
Aquilo que era a energia ativa, a claridade, as buzinas, os freios nervosos, as pessoas apressadas em roupa de trabalho paletó/macacão que caracterizam o masculino dia, com sua arrogância de macho em cio permanente, passam a ter suas cores moduladas em tons de claro escuro. No fim da tarde, como na letra da canção magistralmente interpretada por José e Elba Ramalho: desço dessa solidão e jogo coisas sobre este chão de giz. Ampliam-se-lhes os espaços.
Os botecos/restaurantes da esquina ganham luzes coloridas na fachada, as grandes avenidas revestem-se de uma nova sinuosidade, representadas pelo serpentear dos faróis vermelhos dos carros em lento movimento, como se fossem grandes composições férreas, luminosas e articuladas, a apontar para outros destinos e para múltiplos caminhos, como em Melo, não sei,... só sei que vou por aí...
É quase o meio da noite e eu circulo em uma dessas avenidas de uma grande cidade brasileira. Os espaços térreos da cidade alargam suas fronteiras, como se cada luz nas fachadas sinalizassem para um novo real, mais amplo, mais convidativo, um real antes sólido – o masculino dia - agora líquido, se traveste na feminina noite.
Não é à toa que se diz que à noite todos os gatos são pardos, dito de outro modo, a noite possibilita um (re)inventar-se permanente, uma torrente de possibilidades, um ser-se ao acaso, para depois não ser. Nela somos quase tudo o que desejamos. Nela o humano (re/des)constroi na medida de seus projetos, de seus desejos, de suas idiossincrasias. Estar nela é como estar em um caravançará indiano – visto aqui como um lugar de pouso rápido e não como pousada das almas ao longo das encarnações – um lugar de passagem.
O claro/escuro que possibilita o pardo, reduz a alturas dos prédios, o que dá aos espaços horizontais a impressão de haverem sido ampliados. No invisível dos edifícios, agora na obscuridade, velados pelo manto diáfano das árvores e das luzes invertidas no sentido das calçadas, estas agora mais visíveis.
Mirando para o alto o que vejo são amplos faróis aéreos, ou seja, a luminosidade das janelas que, acima do meu percurso sinalizam como eventuais fragmentos de uma luz que se dá, por inteiro, na horizontalidade e só eventualmente na vertical, em que as paredes mais altas quase desaparecem como se fossem nuvens a nos alertar que espraiar-se agora é preciso.
Ocorre como que uma (re)significação simbólica, em que as árvores, como elegantes deformações, à semelhança de gigantescos bonsais, erguem-se como a buscar Dulcinéias em seus castelos, em cada ponto luminoso lá no alto, acima de suas copas, de seus cabelos, ou de espadas, como poderia ter visto o popular personagem de Cervantes se ainda entre nós estivesse sendo construído.
Durante a noite os sons se tornam mais delicados e fluem como que afinados com sofisticado refino, porém espantosamente audíveis, na lenta evolução dos faróis vermelhos que se movimentam em pontes e passarelas que mais parecem bailar ao som da noite, como que transportadas em suspenso, pela fileira de luzes. Durante a noite os gestos ficam mais lentos e mais plenos de significados e o visível aparente, na claridade/obscuridade, parece menos viril.
Há como que, em cada esquina, antes povoada pelo vai e vem apressado das pessoas um portal de acesso para um espaço/noite paralelo, uma mescla de garganta profunda e furor uterino que, longe de agredir, seduz, na languidez de promessas não previsíveis, de propostas que, durante o dia, soariam extravagantes e inoportunas, as pessoas parecem mais atraentes, os convites mais tentadores e mais repletos de possibilidades.
Nas calçadas as pessoas não andam, desfilam. O clima é temperado e o tempo é, por enquanto, um espaço de promessas, isso até que o próximo dia chegue com sua virilidade suarenta e a cidade endureça e mostre às claras o que ela é, um espaço onde existem poucas fantasias possíveis e como a letra citada já não posso mais vou te jogar num pano de guardar confetes..., isso até chegue uma outra noite quando, de novo, será sempre possível sonhar e sonhar-se.
Boa noite!
Olá João, embora mantenha o blog não sou eu quem o alimenta e, embora pareça brincadeira, nessa matéria, necessito de assessoria. Como estou em SP, tão logo chegue a SLZ providenciarei seguiu-lo. Agradeço o comentário e digo mais, terei muito prazer em segui-lo. Abs. MN
ResponderExcluirQuerido Mestre Mateus, interessantíssima a colocação, onde a virilidade do dia utiliza-se da noite para travestir-se elegantemente feminina. Feminina, porém com toda a masculinidade ofertada, oferecida mas também cobrada dos tempos de hoje. Ótimo blog, parabéns pelos escritos, acompanharei sempre com a atenção devida! Abraços, Rodrigo Gonzalez
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