Caetano Veloso, com o olho de artista que tem, canta em um verso feliz: gente é para brilhar, não pra morrer de fome! O artista nordestino, arrisco-me, talvez sem leituras específicas sobre astrofísica, cosmologia, física quântica, assim o sabe, arrisco-me a dizer, repito, pela intuição. Não é à toa que Merleau-Ponty afirma que o olhar do artista é mais profundo, vê mais além e que Ilya Prigogine declare que o discurso poético é mais rico em possibilidades do que o científico, e Herbert Viana, diga, ainda: o céu de Ícaro tem mais poesia do que o de Galileu.
No conhecimento antigo, havia a noção de que tudo o que existia abaixo da lua era da esfera sublunar e o mundo acima dela era o mundo supra lunar, o eterno, o incriado. A lua era o nosso limite. Tudo o que estava abaixo da lua estava sujeito à transformação, à decadência e à morte, diferentemente do que estava acima, um pouco de Platão?
Hoje, os cientistas, principalmente a partir do telescópio Hubble, chegam à conclusão de que não existem níveis, nem centros no universo, se a lua está no céu a terra também está, o que significa afirmar que somos filhos do céu, ou melhor, somos filhos da Luz.
Segundo Michel Cassé, o que vemos está ligado às propriedades físico-químicas da nossa retina. O sol, em sua insistência de luz, modulou, educou o nosso olhar. E olhem que poesia: os átomos do sol dialogam com os átomos dos nossos olhos através da linguagem da luz. Mas há uma coisa mais difícil de aceitar ante nossos céticos olhos. O fato de vermos como vemos, possivelmente nos faz cegos para outras formas de ver, ou seja, não quer dizer que outras não existam. Saramago, prêmio Nobel da Literatura afirmava: Se Deus quisesse que víssemos mais e melhor nos teria dado olhos de águia! Mas vamos, então, ao que interessa: somos filhos da luz! Portanto, gente é para brilhar!
A matéria nasce da luz e é acompanhada do seu duplo mortal, ao que parece, a antimatéria. É na dialética entre luz e matéria que a natureza dá livre curso; o big-bang é o acontecimento no qual a luz se materializa.
Assim, devemos pensar o NATAL como o nascimento do maior ser de luz, do mais perfeito, mais completo dentre os humanos! E no que nós transformamos a data? Em uma época de exagerado consumismo, de valores que nem sempre contam, numa festa espetaculosa, como diriam os atores de uma novela de TV que fez muito sucesso no Brasil e que me faz, como os ingleses do século XVIII, afirmar: fez sucesso no Brasil e no resto do mundo!
O Natal foi carnavalizado ou, o que é pior, axezizado. Existe essa palavra? Desculpe-me a Dra. Veraluce Santos do curso de Letras da UFMA. Conto uma história: alguns dias antes do Natal, ao passar pela Avenida dos Holandeses, vi um espetáculo, e não sei bem a palavra a utilizar, digamos, inusitado. Diante de uma farmácia recém inaugurada, um homem de baixa estatura e menor peso, vestido de Papai Noel, com microfone na mão e ponto enfiado sabe-se lá onde, rebolava freneticamente, cantando músicas do tipo Axé. O pequeno magrinho e pardo Papai Noel mais parecia um galinho carioca, de quadril desgovernado e, mal comparado, anti-cover da Ivete, este com galo.
O trânsito estava meio engarrafado, embouteillage, para os franceses e eu, com pressa de sair dali, para não ter o constrangimento de ver o ex-bom velhinho erotizar aquele orifício, na boquinha da garrafa. Pensei comigo: é o Natal ou o Carna-Natal-Folia dentro da época? Foi uma cena lamentável!
Em uma recente pesquisa inglesa (inglês não vive sem uma pesquisa), foi constatado que as vendas de Natal são alavancadas pelas mulheres e que 50% das mulheres aproveitam a época para melhorar o look para as festas do fim de ano. Bem natalino, principalmente para impressionar os chefes e colegas de escritório.
NATAL é, entretanto, a comemoração do nascimento do Cristo a nos mostrar que, através Dele, todos nós somos filhos do mesmo Deus. Que responsa!
Pelo menos no Natal, deveríamos lembrar que cada um de nós carrega, em uma simples célula, da unha, por exemplo, todo o código genético; que somos singulares, mesmo tendo o universo todo dentro de nós; que não há nada de idiota em falarmos com animais: nós somos mamíferos e, ao assim fazê-lo, diferentemente do que pensam, estamos ampliando a noção de espaço e comunicação no universo, já que, por experiência própria, sabemos que os mamíferos possuem sentimentos, afetos, sentem raiva, alegria, etc. & tal.
Nietzsche acusa Platão sobre o fato de sermos profundamente alucinados pelo além-mundo, pelo futuro, pelo amanhã. Neste Natal, lembremo-nos de que cada dia basta a si mesmo; se vivermos bem o dia de hoje, teremos fortes possibilidades, também, de fazê-lo amanhã; que somente o agora nos pertence; que o homem é um ser simbólico, por isso curtamos os nossos símbolos e os seus significados.
Lembremo-nos de que é NATAL, de que somos filhos da luz e é o nascimento da LUZ na terra, do SAL na terra, da PAZ no universo.
Lembremo-nos, finalmente, de que a gente nasceu da luz, para a luz e existimos para brilhar!
Ótimo Natal, melhor 2011 e venha o que vier!
Somos da LUZ!
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