Uma seguidora deste blog, que muito me honra com seus comentários, fez, recentemente três perguntas. Uma sobre a lógica dos meus comentários, porque sempre falo a partir de um ou vários autores e, ainda, por que eu não escrevo sobre educação.
A primeira resposta é a de que a lógica é discutir a partir de múltiplas visões, não para justificá-las, mas para deixar bem claro que, existem outras formas, mais contemporâneas de compreender o mundo e que nós, lamentavelmente, teimamos em manter uma antiga visão de mundo, no mínimo, dinossaurica; a segunda é para demonstrar que é possível falar sobre coisas sérias, como diz Bergson, sorrindo, de forma descontraída. O conhecimento científico ou filosófico não necessita ser sisudo. Pode-se falar de forma leve e chamar a atenção para o fato de que as nossas falas do quotidiano, quase sempre, já foram preocupações de grandes pensadores; quanto à última resposta hoje falarei sobre educação, possivelmente de modo diferente daquele aguardado por minha leitora, não para ser reativo, mas para instigar.
O filósofo Lyotard tem uma afirmação profundamente pertinente. Para ele se os humanos nascessem humanos, tal como os gatos nascem gatos, não seria possível e nem sequer desejável - educá-los. Educamos as crianças porque elas não são como os gatos, naturalmente conduzidas pela natureza, por não estarem programadas para isto, necessitando, portanto das instituições de cultura para fazê-lo.
Nessa linha de pensamento e sob outra visão, o interacionista Vygotsky vai nos falar sobre os planos genéticos, e de que o funcionamento psicológico das pessoas não é algo pronto, não é inato, mas sujeito à formação articulada com o ambiente.
Haveria, no seu entendimento, quatro entradas de desenvolvimento que possibilitam o desenvolvimento do ser humano. Uma delas, a filogênese trata do homem enquanto espécie. Diz respeito à história de uma espécie animal, a nossa; há, portanto, coisas que podemos fazer e outras que não, por exemplo, o homem não pode voar, para superar essa deficiência, criou o avião, por exemplo. Uma das grandes características da raça humana é a plasticidade do cérebro. Temos um cérebro aberto, flexível, que faz com que o humano seja o animal menos pronto ao nascer e daí, dependendo do quadro externo, também, o cérebro vai se adaptando às necessidades e oportunidades, mais ou menos assim.
O que chamamos de humano no homem? A sua miséria inicial na infância quando necessita de todos os cuidados sem os quais pode vir a falecer ou a sua capacidade de adquirir uma segunda humanidade, graças, sobretudo à língua que o faz partícipe de um contexto cultural, humanidade esta que está situada sobre aquela, que a sustenta? E mais, este educar-se persiste mesmo na idade adulta já que tem de exercitar-se permanentemente para continuar convivendo com as instituições, para conviver com a civilização e, possivelmente, para continuar sua construção de humanidade. Daí, a educação permanente e contínua, as pós - graduações e toda uma série de novas informações para construir uma vida com rastros menores de indeterminação.
A criança necessita na sua formação de ter as palavras certas, o benefício do cálculo, a adequação do contexto filosófico e permanece durante um bom tempo como um ser de possibilidades e por isso mesmo refém dos adultos. Educar, portanto, nunca deverá ser apenas um ato de transmitir, pois abarca o estimulo ao raciocínio, o aprimoramento do senso crítico, o fortalecimento das faculdades intelectuais, físicas e morais que a criatura humana já começa a incorporar, afirmam alguns, desde o ventre materno.
Convenhamos que isso da ao adulto/professor uma profunda área de manobra ideológica, hoje não mais para o progresso, ele é retrô - embora o retrô esteja na moda - mas para o desenvolvimento do humano e de suas potencialidades.
Li, recentemente, em algum ponto da internet e passo aos leitores os seguintes versos: Somos todos anjos de uma asa só, e só podemos alçar vôo se estivermos abraçados uns aos outros.
Essa informação, simbolicamente correta incorpora visões gregárias, não personalistas, ou contemporâneas, aponta para uma profunda dependência dos grupos já formados, para o aceite do não-revolucionário, para a submissão a uma dada ordem já estabelecida, para um status quo; aponta para o fato de que individualmente nada é conseguido, somos anjos - não entramos em conflitos – e vai por aí. Significa dizer que os interesses do humano já se encontram subordinados à sobrevivência de uma complexidade que não nos é dada a conhecer, sem que a vivenciemos, com a qual não se interage, mas se subordina. Só tenho uma asa... e por falar em anjos lembrei e não perco a oportunidade:
Cê parece um anjo/só que não tem asas/ Ai meu Deus, quando asas tiver/ passe lá em casa...
ou ainda do Alceu Valença:
meu coração tá batendo/ como que diz não tem jeito/ zabumba bumba esquisita/ batendo dentro do peito.....
Se tentarmos ser honestos é possível afirmar que a educação por ser invasiva, não prazerosa, de fora para dentro, tenha algo de inumana. A alegria, a liberdade, a curiosidade iniciais da criança são apagadas em função de uma realidade externa. Esse fato contraditoriamente leva, na nossa sociedade, à formação do ser humano.
É nesse momento que sinto saudades do pensamento pedagógico de Célestin Freinet que, sem possuir formação pedagógica, manteve profundo respeito pelas crianças, registrando suas dúvidas, suas dificuldades, seus sucessos e descobrindo o universo de suas individualidades. Descobre, também, que tudo o que interessa às crianças está fora da sala de aula, como os rios, os animais e as plantas.
E assim, aprendendo com elas, constrói um pensamento de liberdade e participação. Pode-se afirmar, sem medo de errar, a necessidade de se estar atento para o que dizem as crianças e mais, o muita gente esquece:criança não é um adulto pequeno. É criança mesmo!
Entre nós, normalmente as dificuldades e inquietações que as crianças sofrem no ato da e pela educação, para tornarem-se adultas, inculca algo de sofrimento, de retenção, de controle, o que a faz inicialmente inumana. Não é a toa que Jesus Cristo afirma: vinde a mim as criancinhas, nem que Einstein dizia sempre que há perguntas simples que só uma criança é capaz de fazer e quando a faz, são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade.
É possível que estejamos incorrendo em muitos erros ao educar nossas crianças humanas como inumanas formando para o consumismo exagerado, para a redução de valores que não são repostos, para a homofobia – e vamos combinar que grande parte das crianças é educada por mulheres - em um mundo de valores exageradamente masculinos, convenhamos.
Devemos, pois, ter muito cuidado, já que as crianças como um ser de possibilidades pode ser para o que der e vier e o mais importante: elas não nascem programadas elas não nascem como os gatos...
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