quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sobre garças douradas

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Eu estava triste, tristinho, mais sem graça que uma top model magrela na passarela! Inicio prestando um tributo ao excepcional Baleiro, que, ainda por cima, é Zeca. Vivi ha alguns dias, um dia muito triste. Daqueles em que parece que as folhas velhas do tempo já acomodadas e confortavelmente instaladas sobre si mesmas, pelo próprio tempo, passam a ter movimento e, como as folhas do outono no Central Park quebram-se sob os nossos pés e ao fazê-lo, mesmo que de forma reduzida, transportam sempre alguma dor, que, se não mata, maltrata, senão a nós, presumo que a elas próprias.
                       Não era uma daquelas dores que se cura como as da música popular quando diz:  quebrei o teu prato, rasguei teu retrato, bebi teu licor..., essas dores não passam com atos iguais aos da  música, mas, os que já a viveram – a dor e a tristeza da música - sabem que, por alguns momentos esses  atos causam algum prazer, pela descarga de adrenalina que proporcionam. Mas não era assim, a tristeza era tristeza  pura, daquelas que são verdadeiramente assim, sem precisarem de justificativas ou origens. Era tristeza e pronto. Como em Platão ela  era exatamente aquilo que tinha que ser, a qualidade da tristeza.
                         A próxima chegada da noite não provocou qualquer alívio, mesmo com a possibilidade de sonhar e, sabe Deus, fugir de seu controle. Começando a sonhar  antevi a proximidade do sono. Diferentemente do que muitos imaginam não sonhamos porque dormimos, e sim,  dormimos, porque sonhamos. Não sei se repararam bem; bem antes de entrarmos em sono profundo começamos a sonhar. O nosso corpo vai ficando mais leve, os quadros definidos na memória vão  ficando mais difusos, as lembranças menos visíveis, sentimos uma agradável leveza no corpo cada vez mais insustentável, parece que começamos a voar, esta é a senha para já estarmos sonhando e, portanto, iniciando a dormir. Esse ato, quase sempre prazeroso  estabelece um desligamento do real e já estamos sonhando, estamos no portal para o ato de dormir.
O sonho começa  a nos encaminhar para seguir os sons da flauta de Dionísio. É a ponte para o sono profundo. Essa não é uma imagem apenas estética. É assim que Morfeu  nos acolhe em seus braços.
Nem essa possibilidade me trouxe algum sentimento de conforto diante, do face to face, da sensação deprimente de estar triste, uma  tristeza abissal, profunda,  daquelas que nem leite de mãe, nem caldo de galinha são capazes de operar alguma melhora, algum conforto.
O próprio inicio do sonho era de uma tristeza (re)traduzida pela natureza em mim, instigante, insensível, incurável, cruel. A minha tristeza, parafraseando Nietzsche, era como um ato de sofrer no ato de estar triste. E assim, como um Dom José, da ópera de Bizet, o meu último espasmo da consciência da tristeza foi o de: eu matei a minha Carmen e, enfim, caí em sono profundo.
                     Ah, sobre garças douradas! Naquela noite, como compensação do dia triste, eu sonhei lindamente com uma revoada de garças douradas sobrevoando  a minha cama, esta alcatifada por relvado todo verde!   

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A delícia de ser o que é

 Vive-se hoje a possibilidade de uma segunda onda  individualista, uma nova fase “revolucionária” (hirc), mesmo que não seja mais possível,  na prática, fazerem-se  revoluções, caríssimo Gastão. Assim, a evolução das novas sociedades democráticas, tem levado a acabo o alargamento  da privatização, a redução das identidades sociais, a minimização da importância das organizações político partidárias, a acelerada desestabilização das personalidades que marcaram a modernidade. Hoje é possível viver, como na música, onde “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...”.
                          Esse é o modelo, ou seja, a ausência de um modelo padrão, a presença de modelos personalizados, de  modo que, caminhando em qualquer cidade média ou de grande porte do mundo ocidental já não posso cantar: ‘Um dia eu era herói e o meu cavalo só falava inglês, a filha do cowboy, era você igual ás outras três”... Hoje não há três iguais. O que se vê é a profusão de modelos, é o fim de uma ordem disciplinar, revolucionária, convencional que, entre  nós, predominou até meados dos anos sessenta/setenta. O que se vê, repito, é a uma mutação sociológica em curso a que Castoriades, citado por Lypovetsky, chama de “significação imaginária  central” .                       
                         Experimente andar pelas ruas de Milão – radicalizo -, especialmente em temporada  de desfile fashion. Parece que você está dentro de um caleidoscópio multicolorido, com o preto como cor básica e muita gente bonita e diferente. É uma cena espetacular. É um espetáculo. E isto é o que é. Vivemos em um mundo em que o espetáculo saiu das casas de espetáculos e veio para a nossa  rua. Vocês já viram em sinais de transito ou em faróis como dizem os paulistas, o que se apresentam? Malabaristas, comedores de fogo, pernas de pau, estão aí, aqui e acolá  e não me deixam mentir!
                         Instala-se, na sociedade judaico, cristã, ocidental, - sem nenhuma alusão ao Casseta & Planeta -   uma sociedade mais flexível, baseada na informação e no estímulo exacerbado das necessidades. “Não me olhe, como se a polícia andasse atrás de mim”. Cada um tenta ser como deseja.  Aqui as necessidades não são as da sociedade, são as minhas. O marketing já não cria o produto para satisfazer as nossas necessidades, cria as nossas necessidades mesmas. Há pouco tempo não sabíamos da importância do telefone celular ou do tele móvel, como chamam em Portugal. Hoje é possível  viver sem ele? Aqui vai um exemplo de sala de aula. Em nosso País,  por volta dos anos oitenta, cada aluno de uma universidade pública tinha um projeto socioeconômico e político para o Brasil, lembra-se Gastão? Arisque-se, hoje, sendo professor a perguntar por eles, os projetos... Cada aluno, exceto possivelmente as exceções, terá apenas um projeto pessoal. Terminar o curso, conseguir um bom emprego comprar um carro, ter um apartamento, sair da cada do pai, etc. & tal.
                      O que é buscado, em sua grande maioria é a sua autonomização. O ideal de subordinação a regras pré-definidas, rígidas, tem sido superado por modelos mais flexíveis. Vejamos como estão sendo construídas as famílias brasileiras,  há uma busca cada vez maior de realização subjetiva, tudo é feito para não durar, descartável, até o amor; a legislação educacional brasileira aponta para a necessidade de respeito ás diferenças, para as habilidades e competências, embora nem sempre cumpridas, quando o ideal moderno era de ordem/rigidez, ainda na  educação, respeita-se a singularidade subjetiva e estimula-se o direito do indivíduo ser ele próprio, do tipo: “ quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo o mais vá  pro inferno” ou eu quero é  viver em paz, por favor me beije a boca”...Estimula-se a condição da privacidade, há algo mais personalizado? E o respeito à venda da imagem. Busca-se, cada vez mais viver sem coação, a condição sexual, a opção religiosa, a busca de dignidade na sociedade para categorias cujo respeito, há pouco tempo seria  impensável; a quebra da rigidez hospitalar, a medicina alopata  aceitando homeopatias, terapias do riso, acumputura, terapias  das cores, das pedras, do calor, o efeito da música, o reconhecimento de que viver feliz aumenta a imunidade, a importância que ganharam os profissionais de enfermagem, terapeutas, contra o dirigismo hospitalar centrado nos médicos, etc. & tal.
                                  Vejamos, ainda, programas como os Big Brothers que fazem tanto sucesso, na maioria da população brasileira, onde os participantes não tem, via de regra,  qualquer talento além de alguns  músculos, tatuagens, várias curvas, bundas maiores ou menores e, quase sempre um rosto interessante. Como eles não têm talento para vender, vendem as emoções e, embora enrustida,  uma imensa gama de telespectadores  brasileiros compra essa emoção: o choro, as barracos, as brigas, o sexo que acontece sob edredons... ou não?/ Como diria o carismático Lima Duarte, como Sinhozinho Malta: to certo ou to errado? Há pessoas que não se contentam com as apresentações convencionais e compram pacotes e outras formas, as mais diversas.
                                  Enquanto a modernidade foi a época da produção e da  revolução, vive-se a época da informação e da expressão; grande parte do trabalho é superado pelas redes, pelos contatos, pelos relacionamentos; somos ouvintes/assistentes permanentes, em casa, no carro, nos  telefones e em toda uma rede de novos modelos que nos colocam, em tempo real, com um mundo às vezes tão longe, onde nunca chegaremos senão através de alguns sons e outras imagens.
                        Neste bendito/maldito tempo da sedução, da mídia, do mix, do ato de pedir a palavra, de manifestar-se, de falar com todos, ainda aqueles a que você nunca irá conhecer pessoalmente, - pelo tato e pelo cheiro – somente através do celular, do Orkut, do Facebook, do Messenger,  nunca se falou tanto entre nós  e, lamentavelmente, nunca fomos tão tristes, tão sozinhos, tão angustiados e nunca estivemos tão desesperadamente desamparados!  

Ave Maria,
Nos seus andores,
Rogai por nós,
Os pecadores...
Amém!