Tirei um tempo para, com Merleau Ponty, pensar sobre o milagre do humano na vida e, simultaneamente, de sua fragilidade e, sob o impacto do espanto filosófico, tentar compreender como este fenomenólogo francês compreende as relações do corpo-humano-no-mundo.
Para ele, um corpo humano está aí quando, está entre vidente e visível, entre tocante e tocado, entre um olho e outro, entre a mão e a mão se produz uma espécie de recruzamento quando se acende a faísca do senciente-sensível, até que um acidente do corpo desfaça o que nenhum acidente teria bastado para fazer...
Aqui, neste sentido, é o corpo que vê, sente, toca, aperta, é o ponto de chegada e de partida de todo o conhecimento que me é dado a conhecer. Desconsiderado no decorrer da história humana cristã, visto como o lado ruim, na relação com a alma, o corpo nu de Adão e Eva, ligado aos pecados e às culpas do cristianismo é aqui elevado em dignidade e incorpora, como de fato o faz, toda a grandiosidade dos gestos, dos símbolos que cria, das falas que fala, dos olhares que vê e atravessam o mundo e assim fazendo, o constrói.
Esse ato de construção se dá na tessitura das trocas o que para Roberto Carlos pode ser assim: no seu corpo é que eu encontro/ depois do amor o descanso/ e essa paz infinita/ no seu corpo minhas mãos se deslizam e se firmam/ numa curva mais bonita/ no seu corpo o meu momento é mais perfeito/ e eu sinto no meu peito/ o seu coração bater...
É o corpo que, como elemento simbólico, no mundo, funciona como a chave do processo simbólico e cria a possibilidade da interação entre os corpos-símbolos e os símbolos por ele criados e decodificados conforme Nicolau de Cusa.
Pensemos, então, no mundo sem a maestria das mãos de Artur Moreira Lima, a genialidade dos pés de Pelé, a irreverência ou malemolência, sei lá eu, das pernas tortas de Mané Garrincha, da explosão das pernas de Ronaldo – o fenômeno – em sua melhor fase, sem a força e graciosidade das pernas de Ana Botafogo, das pernas e dos quadris de Marta Rocha e na falta da meia polegada que a faria miss universo. Hoje parece que estou vidrado em pernas, na agilidade brasileiríssima do corpo de Daiane dos Santos, chegando um pouco mais perto, na voz emitida com timbre personalíssimo de Fernando de Carvalho, no ritmo e agilidade musical das mãos e pés de Zezé Cassas ao fazer com que o som de um piano, ao seu bel prazer, possa emitir sons como que produzidos por um cravo medieval, no paladar da octogenária e sempre querida Admeé Duailibe. O que seria do nosso mundo, o que seria de nós sem esses corpos...
Ao lembrar, do corpo de pessoas conhecidas, por um momento, escuto na voz de Nana Caymi: QUERO/ tua risada mais gostosa/ esse teu jeito de achar/ que a vida pode ser maravilhosa/ QUERO tua alegria escandalosa/ vitoriosa por não ter/ vergonha de sentir como se goza....
Ao conceber esse corpo-sujeito, que se estabelece no mundo numa relação pré-objetiva, pré-consciente, como o sujeito que percebe e compartilha que é fundamental para a consciência, na própria compreensão de Marx. Corpo que percebe e é percebido em seu estar-no-mundo, que chamo de meu é a sentinela que se posta silenciosamente sob as minhas palavras e sob os meus pensamentos. Ao digitar no computador, utilizo o meu corpo, ao dirigir, ao dar aulas e palestras, ao fazer amor ele é o meu instrumental.
O meu corpo, via de regra, obedece aos meus comandos e mais, sabe claramente os meus/seus limites. Se eu quisesse, por exemplo, interpretar como Fred Mercury ou jogar futebol como Neymar, ele logo diria, peraí... isso não é de sua essência. Ainda que eu treinasse muito, possivelmente nunca chegaria, com este que tenho e sou, à performance desses dois furacões. É possível, e isto compensa que eu possa fazer coisas que aqueles dois não podem ou não puderam fazer. Pois tanto o meu quanto o deles esteve ou está no tecido do mundo, na sua coesão, no seu espaço de fazer e saber fazer certas coisas e não outras.
Esse meu corpo-sujeito na complexidade do mundo está, dialógica ou dialeticamente, unido com os outros, nas suas ações, nos seus fazeres, nos seus afetos. Essa dimensão (re)constitui a relação sujeito-objeto, visto historicamente este último, quase sempre como uma decorrência daquele, o sujeito. Aqui a noção não é de ambivalência, é de permuta, o sujeito-corpo estabelece relações com o mundo no qual está e ao qual pertence. E, assim, sendo, como em Heideggar, supera o rígido dualismo cartesiano da res cogitans e da res extensa.
Na contemporaneidade, o corpo começa a ganhar quase que uma nova autonomia nunca obtida na história da sociedade humana. O corpo nunca foi tão malhado, massageado e exercitado, nem na Grécia antiga, como é hoje. Nunca teve tantas próteses, silicones, botox e metacrilatos à disposição. A pele nunca foi tão esticada a ponto da saudosa humorista Dercy Gonçalves, rindo de si mesma, o que é genial, chegou a afirmar que ao sentar no vaso tinha que buscar concentração para encontrar o lugar por onde a urina deveria fluir face a quantidade de plásticas realizadas, do tira e estica.
No excesso dessa visão, algumas pessoas quase chegam a afirmar: o meu corpo e eu. Eu prefiro, entretanto, o meu corpo sou eu. Eu o tenho, ele me tem. O que faço por fora é o reflexo do seu dentro, o que o faz alegre, estimulado, magoado é o reflexo do meu fora.
Com meu corpo vejo e sou visto. Na vida, o mundo visível e que me torna visto é parte de uma mesma construção e quase chego a dizer como Klee, se é que às vezes não o faço: Numa floresta, várias vezes senti que não era eu que olhava a floresta. Certos dias, senti que eram as árvores que me olhavam, que me falavam [...] Eu estava ali, escutando.
Pensar corpo com música brasileira dá sempre o maior samba e me faz lembrar a sambista Clara Nunes ao cantar:
Morena de Angola que trás um chocalho amarrado na canela,
não sei se ela mexe o chocalho ou o chocalho é quem mexe com ela...
AXÉ
*Tratar do corpo como o faço não significa ignorar outros aspectos que constroem o ser humano, realizei uma époche ou redução fenomenológica para destacar a sua materialidade.
Amém.
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