sábado, 27 de novembro de 2010

Dos cânticos do silêncio e das gargantas da terra

                     Há poucos dias uma emissora de televisão mostrou em reportagem uma cidade maranhense profundamente preocupada com a época da chegada das chuvas e mostrava o que imaginei serem imagens do ano passado, uma torrente de cascatas sobrepostas em um terreno profundamente arrasado. A cena era triste e atestava, no mínimo, a ignorância humana e de como é fácil destruir e difícil, quase impossível, reconstruir, uma área que já havia sido de floresta amazônica.
                    O que vi na televisão é o retrato falado de realidades programadas, de bombas relógio engatilhadas, de um progresso que não respeita o homem como a figura central da sustentabilidade. As casas em volta a desabar, crianças chorando, mães desesperadas, um inferno particular de Dante, onde o já exíguo espaço público de convivência desaparecia e se instalava a precariedade em todos os níveis.
                     Os homens esquecem que a terra fala, entretanto, conforme Heráclito, frag. 19, não sabendo escutar, não sabem falar, isto nós, os humanos. Pagamos hoje e pagaremos muito mais, por não sabermos escutar e entender a sua linguagem. Precisamos saber ouvir e guardar silêncio, ou como em Heidegger, ouvir, na perspectiva de abrir-se para a voz do outro, como para a voz que cada um carrega dentro de si. Este ato de escuta já é, em si, um ato de pertencer, na medida em que o próprio silêncio já é uma forma de dizer ou não dizer. Assim como o corpo fala, a terra também o faz.
                        Tentando tornar mais claro para que um meu amigo, filósofo, não me chame de hermético dou um exemplo: nenhum de nós que já tenha dito, eu te amo! Engata uma palavra em seguida. Por quê? Exatamente porque depois de uma afirmação desta fica estabelecido o silêncio. Por quê, insisto? Continuo atento ao filósofo, porque, neste caso, o silêncio dá àquela afirmação o tom da necessária veracidade, ou de como um pertencimento, para o qual Heideggar  utiliza a palavra alemã Zugehörigkeit, desculpem-me. O silêncio é, portanto,  um certo grau de comunicação não verbal, um modo de dizer ou de dar veracidade.
                  Já hoje no século XXI, o século da informação com a tecnologia humana desenvolvida, em grande parte, através das ciências mais exatas nos tem mostrado que há outras formas de fazer, algumas não tão exatas, outras, segundo o pensamento da complexidade de Morim, tecidas junto o que, eventualmente, pode fazer com que  determinadas intervenções na natureza custem um pouco mais caro, mas a longo e médio prazos, sejam capazes de fazer com que os danos aos humanos possam ser menores.
                    Não há como hoje, o mundo em transição paradigmática, mais fluído, encontrar todas as soluções para os problemas da terra em estruturas de pensamentos que ainda mapeiam nosso campo teórico, conforme Santos e que vicejaram e trabalharam entre o século XVIII e as duas primeiras décadas do século XX como em Adam Smith, Ricardo, Lavoisier, Darwin, Marx, Durkheim, Max Weber, Pareto, Humboldt, Planck, Poincaré e Einstein. Esses são pensadores extraordinários que construíram e ainda constroem o nosso pensamento, mas de alguma forma, prefiro ficar com Paul Ricoeur quando afirma que: cada autor fala em um tempo, para um tempo.
                       A visão da terra que é construída na modernidade, tempo epistemológico em crise, tem muito do pensamento de pensadores como Newton e Bacon, para o qual, segundo este último era necessário se possível, escravizá-la, para que ela revelasse todos os seus segredos. Essa visão era a de uma natureza passiva, eterna e reversível. Ainda segundo ele, através da ciência a pessoa humana seria o senhor e o possuidor  da natureza. Veja-se claramente, na visão moderna, a divisão impossível entre  homem/natureza. Hoje sabemos que assim não é.
                     Há poucos dias conversava-se sobre São Luis ser uma cidade cheia de praias e eu cá com meus botões, de que valem se não posso nelas tomar banho, em quase toda a sua totalidade, talvez, ao manter essa condição, fosse até melhor que não as tivesse e assim, nós, não teríamos o nosso apetite instigado por um alimento que, em sã consciência,  não podemos consumir.          
                    Ao pensar nas falas da terra, temos que considerar que a nossa linguagem deve repousar não apenas na possibilidade de decifrar seqüências de frases ou palavras, mas de compreender o outro, na perspectiva de como um ser-no-mundo estar aberto às experiências significativas e às possibilidades de articular seus significados e sentidos. Vê-se a cada ano áreas degradadas, poluídas, por exemplo, ou dragadas de forma deficiente, (re)alagando; áreas tomadas ao mar, a exigir trabalhos de contenção adicional a custos altíssimos, ou seja, o homem privatiza e a  natureza cuida da publicização, esta vista aqui como uma autêntica devolução dos espaços públicos, como uma (re)apresentação. Estou aqui...
                  Devemos ler com possível clareza os eventos que nos cercam não como castigos da natureza, mas como a possibilidade de retorno das nossas ações que, ao serem tomadas, consciente ou inconscientemente, ainda são nossas ações. A terra grita com os estrondos de seus sons característicos ou com o seu silêncio, como organismo vivo que é e no qual nós estamos presos a rodopiar velozmente pelo universo.
                   Imagino que para falar das coisas, deverei fazê-lo a partir da coisa sobre a qual falo. Esse meu ato de falar deve considerar a minha escuta do que falo e a sua própria acolhida na existência. O meu falar incorpora o meu silêncio da escuta como o próprio ato de estar em manifestação.
               Esta é a hora, segundo Einstein, de fazer perguntas simples como só as crianças sabem fazer e perceber diante delas a nossa perplexidade e, se possível, a partir daí, tomar um caminho.
               A terra fala isto é real! Ao escutá-la, no silêncio, tudo o que ouço ou vejo carrega consigo esses cânticos dela própria, os gritos oprimidos de seus mares, de  seus rios, de seus filhos, das estrelas de todo o universo, das nossas e da boca de todos os átomos dos quais somos construídos.

Boa Viagem!

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