quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A delícia de ser o que é

 Vive-se hoje a possibilidade de uma segunda onda  individualista, uma nova fase “revolucionária” (hirc), mesmo que não seja mais possível,  na prática, fazerem-se  revoluções, caríssimo Gastão. Assim, a evolução das novas sociedades democráticas, tem levado a acabo o alargamento  da privatização, a redução das identidades sociais, a minimização da importância das organizações político partidárias, a acelerada desestabilização das personalidades que marcaram a modernidade. Hoje é possível viver, como na música, onde “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...”.
                          Esse é o modelo, ou seja, a ausência de um modelo padrão, a presença de modelos personalizados, de  modo que, caminhando em qualquer cidade média ou de grande porte do mundo ocidental já não posso cantar: ‘Um dia eu era herói e o meu cavalo só falava inglês, a filha do cowboy, era você igual ás outras três”... Hoje não há três iguais. O que se vê é a profusão de modelos, é o fim de uma ordem disciplinar, revolucionária, convencional que, entre  nós, predominou até meados dos anos sessenta/setenta. O que se vê, repito, é a uma mutação sociológica em curso a que Castoriades, citado por Lypovetsky, chama de “significação imaginária  central” .                       
                         Experimente andar pelas ruas de Milão – radicalizo -, especialmente em temporada  de desfile fashion. Parece que você está dentro de um caleidoscópio multicolorido, com o preto como cor básica e muita gente bonita e diferente. É uma cena espetacular. É um espetáculo. E isto é o que é. Vivemos em um mundo em que o espetáculo saiu das casas de espetáculos e veio para a nossa  rua. Vocês já viram em sinais de transito ou em faróis como dizem os paulistas, o que se apresentam? Malabaristas, comedores de fogo, pernas de pau, estão aí, aqui e acolá  e não me deixam mentir!
                         Instala-se, na sociedade judaico, cristã, ocidental, - sem nenhuma alusão ao Casseta & Planeta -   uma sociedade mais flexível, baseada na informação e no estímulo exacerbado das necessidades. “Não me olhe, como se a polícia andasse atrás de mim”. Cada um tenta ser como deseja.  Aqui as necessidades não são as da sociedade, são as minhas. O marketing já não cria o produto para satisfazer as nossas necessidades, cria as nossas necessidades mesmas. Há pouco tempo não sabíamos da importância do telefone celular ou do tele móvel, como chamam em Portugal. Hoje é possível  viver sem ele? Aqui vai um exemplo de sala de aula. Em nosso País,  por volta dos anos oitenta, cada aluno de uma universidade pública tinha um projeto socioeconômico e político para o Brasil, lembra-se Gastão? Arisque-se, hoje, sendo professor a perguntar por eles, os projetos... Cada aluno, exceto possivelmente as exceções, terá apenas um projeto pessoal. Terminar o curso, conseguir um bom emprego comprar um carro, ter um apartamento, sair da cada do pai, etc. & tal.
                      O que é buscado, em sua grande maioria é a sua autonomização. O ideal de subordinação a regras pré-definidas, rígidas, tem sido superado por modelos mais flexíveis. Vejamos como estão sendo construídas as famílias brasileiras,  há uma busca cada vez maior de realização subjetiva, tudo é feito para não durar, descartável, até o amor; a legislação educacional brasileira aponta para a necessidade de respeito ás diferenças, para as habilidades e competências, embora nem sempre cumpridas, quando o ideal moderno era de ordem/rigidez, ainda na  educação, respeita-se a singularidade subjetiva e estimula-se o direito do indivíduo ser ele próprio, do tipo: “ quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo o mais vá  pro inferno” ou eu quero é  viver em paz, por favor me beije a boca”...Estimula-se a condição da privacidade, há algo mais personalizado? E o respeito à venda da imagem. Busca-se, cada vez mais viver sem coação, a condição sexual, a opção religiosa, a busca de dignidade na sociedade para categorias cujo respeito, há pouco tempo seria  impensável; a quebra da rigidez hospitalar, a medicina alopata  aceitando homeopatias, terapias do riso, acumputura, terapias  das cores, das pedras, do calor, o efeito da música, o reconhecimento de que viver feliz aumenta a imunidade, a importância que ganharam os profissionais de enfermagem, terapeutas, contra o dirigismo hospitalar centrado nos médicos, etc. & tal.
                                  Vejamos, ainda, programas como os Big Brothers que fazem tanto sucesso, na maioria da população brasileira, onde os participantes não tem, via de regra,  qualquer talento além de alguns  músculos, tatuagens, várias curvas, bundas maiores ou menores e, quase sempre um rosto interessante. Como eles não têm talento para vender, vendem as emoções e, embora enrustida,  uma imensa gama de telespectadores  brasileiros compra essa emoção: o choro, as barracos, as brigas, o sexo que acontece sob edredons... ou não?/ Como diria o carismático Lima Duarte, como Sinhozinho Malta: to certo ou to errado? Há pessoas que não se contentam com as apresentações convencionais e compram pacotes e outras formas, as mais diversas.
                                  Enquanto a modernidade foi a época da produção e da  revolução, vive-se a época da informação e da expressão; grande parte do trabalho é superado pelas redes, pelos contatos, pelos relacionamentos; somos ouvintes/assistentes permanentes, em casa, no carro, nos  telefones e em toda uma rede de novos modelos que nos colocam, em tempo real, com um mundo às vezes tão longe, onde nunca chegaremos senão através de alguns sons e outras imagens.
                        Neste bendito/maldito tempo da sedução, da mídia, do mix, do ato de pedir a palavra, de manifestar-se, de falar com todos, ainda aqueles a que você nunca irá conhecer pessoalmente, - pelo tato e pelo cheiro – somente através do celular, do Orkut, do Facebook, do Messenger,  nunca se falou tanto entre nós  e, lamentavelmente, nunca fomos tão tristes, tão sozinhos, tão angustiados e nunca estivemos tão desesperadamente desamparados!  

Ave Maria,
Nos seus andores,
Rogai por nós,
Os pecadores...
Amém!