quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Sobre garças douradas

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Eu estava triste, tristinho, mais sem graça que uma top model magrela na passarela! Inicio prestando um tributo ao excepcional Baleiro, que, ainda por cima, é Zeca. Vivi ha alguns dias, um dia muito triste. Daqueles em que parece que as folhas velhas do tempo já acomodadas e confortavelmente instaladas sobre si mesmas, pelo próprio tempo, passam a ter movimento e, como as folhas do outono no Central Park quebram-se sob os nossos pés e ao fazê-lo, mesmo que de forma reduzida, transportam sempre alguma dor, que, se não mata, maltrata, senão a nós, presumo que a elas próprias.
                       Não era uma daquelas dores que se cura como as da música popular quando diz:  quebrei o teu prato, rasguei teu retrato, bebi teu licor..., essas dores não passam com atos iguais aos da  música, mas, os que já a viveram – a dor e a tristeza da música - sabem que, por alguns momentos esses  atos causam algum prazer, pela descarga de adrenalina que proporcionam. Mas não era assim, a tristeza era tristeza  pura, daquelas que são verdadeiramente assim, sem precisarem de justificativas ou origens. Era tristeza e pronto. Como em Platão ela  era exatamente aquilo que tinha que ser, a qualidade da tristeza.
                         A próxima chegada da noite não provocou qualquer alívio, mesmo com a possibilidade de sonhar e, sabe Deus, fugir de seu controle. Começando a sonhar  antevi a proximidade do sono. Diferentemente do que muitos imaginam não sonhamos porque dormimos, e sim,  dormimos, porque sonhamos. Não sei se repararam bem; bem antes de entrarmos em sono profundo começamos a sonhar. O nosso corpo vai ficando mais leve, os quadros definidos na memória vão  ficando mais difusos, as lembranças menos visíveis, sentimos uma agradável leveza no corpo cada vez mais insustentável, parece que começamos a voar, esta é a senha para já estarmos sonhando e, portanto, iniciando a dormir. Esse ato, quase sempre prazeroso  estabelece um desligamento do real e já estamos sonhando, estamos no portal para o ato de dormir.
O sonho começa  a nos encaminhar para seguir os sons da flauta de Dionísio. É a ponte para o sono profundo. Essa não é uma imagem apenas estética. É assim que Morfeu  nos acolhe em seus braços.
Nem essa possibilidade me trouxe algum sentimento de conforto diante, do face to face, da sensação deprimente de estar triste, uma  tristeza abissal, profunda,  daquelas que nem leite de mãe, nem caldo de galinha são capazes de operar alguma melhora, algum conforto.
O próprio inicio do sonho era de uma tristeza (re)traduzida pela natureza em mim, instigante, insensível, incurável, cruel. A minha tristeza, parafraseando Nietzsche, era como um ato de sofrer no ato de estar triste. E assim, como um Dom José, da ópera de Bizet, o meu último espasmo da consciência da tristeza foi o de: eu matei a minha Carmen e, enfim, caí em sono profundo.
                     Ah, sobre garças douradas! Naquela noite, como compensação do dia triste, eu sonhei lindamente com uma revoada de garças douradas sobrevoando  a minha cama, esta alcatifada por relvado todo verde!   

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A delícia de ser o que é

 Vive-se hoje a possibilidade de uma segunda onda  individualista, uma nova fase “revolucionária” (hirc), mesmo que não seja mais possível,  na prática, fazerem-se  revoluções, caríssimo Gastão. Assim, a evolução das novas sociedades democráticas, tem levado a acabo o alargamento  da privatização, a redução das identidades sociais, a minimização da importância das organizações político partidárias, a acelerada desestabilização das personalidades que marcaram a modernidade. Hoje é possível viver, como na música, onde “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...”.
                          Esse é o modelo, ou seja, a ausência de um modelo padrão, a presença de modelos personalizados, de  modo que, caminhando em qualquer cidade média ou de grande porte do mundo ocidental já não posso cantar: ‘Um dia eu era herói e o meu cavalo só falava inglês, a filha do cowboy, era você igual ás outras três”... Hoje não há três iguais. O que se vê é a profusão de modelos, é o fim de uma ordem disciplinar, revolucionária, convencional que, entre  nós, predominou até meados dos anos sessenta/setenta. O que se vê, repito, é a uma mutação sociológica em curso a que Castoriades, citado por Lypovetsky, chama de “significação imaginária  central” .                       
                         Experimente andar pelas ruas de Milão – radicalizo -, especialmente em temporada  de desfile fashion. Parece que você está dentro de um caleidoscópio multicolorido, com o preto como cor básica e muita gente bonita e diferente. É uma cena espetacular. É um espetáculo. E isto é o que é. Vivemos em um mundo em que o espetáculo saiu das casas de espetáculos e veio para a nossa  rua. Vocês já viram em sinais de transito ou em faróis como dizem os paulistas, o que se apresentam? Malabaristas, comedores de fogo, pernas de pau, estão aí, aqui e acolá  e não me deixam mentir!
                         Instala-se, na sociedade judaico, cristã, ocidental, - sem nenhuma alusão ao Casseta & Planeta -   uma sociedade mais flexível, baseada na informação e no estímulo exacerbado das necessidades. “Não me olhe, como se a polícia andasse atrás de mim”. Cada um tenta ser como deseja.  Aqui as necessidades não são as da sociedade, são as minhas. O marketing já não cria o produto para satisfazer as nossas necessidades, cria as nossas necessidades mesmas. Há pouco tempo não sabíamos da importância do telefone celular ou do tele móvel, como chamam em Portugal. Hoje é possível  viver sem ele? Aqui vai um exemplo de sala de aula. Em nosso País,  por volta dos anos oitenta, cada aluno de uma universidade pública tinha um projeto socioeconômico e político para o Brasil, lembra-se Gastão? Arisque-se, hoje, sendo professor a perguntar por eles, os projetos... Cada aluno, exceto possivelmente as exceções, terá apenas um projeto pessoal. Terminar o curso, conseguir um bom emprego comprar um carro, ter um apartamento, sair da cada do pai, etc. & tal.
                      O que é buscado, em sua grande maioria é a sua autonomização. O ideal de subordinação a regras pré-definidas, rígidas, tem sido superado por modelos mais flexíveis. Vejamos como estão sendo construídas as famílias brasileiras,  há uma busca cada vez maior de realização subjetiva, tudo é feito para não durar, descartável, até o amor; a legislação educacional brasileira aponta para a necessidade de respeito ás diferenças, para as habilidades e competências, embora nem sempre cumpridas, quando o ideal moderno era de ordem/rigidez, ainda na  educação, respeita-se a singularidade subjetiva e estimula-se o direito do indivíduo ser ele próprio, do tipo: “ quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo o mais vá  pro inferno” ou eu quero é  viver em paz, por favor me beije a boca”...Estimula-se a condição da privacidade, há algo mais personalizado? E o respeito à venda da imagem. Busca-se, cada vez mais viver sem coação, a condição sexual, a opção religiosa, a busca de dignidade na sociedade para categorias cujo respeito, há pouco tempo seria  impensável; a quebra da rigidez hospitalar, a medicina alopata  aceitando homeopatias, terapias do riso, acumputura, terapias  das cores, das pedras, do calor, o efeito da música, o reconhecimento de que viver feliz aumenta a imunidade, a importância que ganharam os profissionais de enfermagem, terapeutas, contra o dirigismo hospitalar centrado nos médicos, etc. & tal.
                                  Vejamos, ainda, programas como os Big Brothers que fazem tanto sucesso, na maioria da população brasileira, onde os participantes não tem, via de regra,  qualquer talento além de alguns  músculos, tatuagens, várias curvas, bundas maiores ou menores e, quase sempre um rosto interessante. Como eles não têm talento para vender, vendem as emoções e, embora enrustida,  uma imensa gama de telespectadores  brasileiros compra essa emoção: o choro, as barracos, as brigas, o sexo que acontece sob edredons... ou não?/ Como diria o carismático Lima Duarte, como Sinhozinho Malta: to certo ou to errado? Há pessoas que não se contentam com as apresentações convencionais e compram pacotes e outras formas, as mais diversas.
                                  Enquanto a modernidade foi a época da produção e da  revolução, vive-se a época da informação e da expressão; grande parte do trabalho é superado pelas redes, pelos contatos, pelos relacionamentos; somos ouvintes/assistentes permanentes, em casa, no carro, nos  telefones e em toda uma rede de novos modelos que nos colocam, em tempo real, com um mundo às vezes tão longe, onde nunca chegaremos senão através de alguns sons e outras imagens.
                        Neste bendito/maldito tempo da sedução, da mídia, do mix, do ato de pedir a palavra, de manifestar-se, de falar com todos, ainda aqueles a que você nunca irá conhecer pessoalmente, - pelo tato e pelo cheiro – somente através do celular, do Orkut, do Facebook, do Messenger,  nunca se falou tanto entre nós  e, lamentavelmente, nunca fomos tão tristes, tão sozinhos, tão angustiados e nunca estivemos tão desesperadamente desamparados!  

Ave Maria,
Nos seus andores,
Rogai por nós,
Os pecadores...
Amém!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Em 2011 - viva com a cabeça e com o coração

O autor Almada Negreiros  nos conta uma história interessante.
Certa vez pediram a uma criança que desenhasse uma flor! Durante um bom tempo a palavra flor andou por dentro daquela criança. Da cabeça para o coração  e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que Deus faz uma  flor. Finalmente ela apresentou o desenho, é possível que as  linhas não estivessem na ordem certa, mas aquelas eram as linhas com que Deus faz uma flor!
                  Tenho a impressão que esta história nos mostra a importância de tentarmos acertar, mesmo quando, eventualmente, erramos; mostra também a presença da razão e da emoção, aqui representados pela  cabeça e pelo coração no ato  humano de interagir com o mundo e assim construí-lo; e, finalmente, aponta para  o fato de que o nosso Deus, qualquer que seja a trajetória da  nossa fé deve ter muito de PAI e muito de MÃE: toque harmônico entre Razão e Sensibilidade.
                 Ainda que nem sempre tenhamos acertado em tudo o que desejamos acertar  ELE compreende o nosso coração e sabe que em 2011 tentaremos  fazer melhor! ELE nos conhece, ELE nos ama, ELE nos criou e nos (re)cria a cada dia!
                Em 2011 venha o que vier...
                                                           
                                             SOMOS DA LUZ!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Somos todos filhos da LUZ!

Caetano Veloso, com o olho de artista que tem, canta em um verso feliz: gente é para brilhar, não pra morrer de fome! O artista nordestino, arrisco-me, talvez sem leituras específicas sobre astrofísica, cosmologia, física quântica, assim o sabe, arrisco-me a dizer, repito, pela intuição. Não é à toa que Merleau-Ponty afirma que o olhar do artista é mais profundo, vê mais além e que Ilya Prigogine declare que o discurso poético é mais rico em possibilidades do que o científico, e Herbert Viana, diga, ainda: o céu de Ícaro tem mais poesia do que o de Galileu.
                    No conhecimento antigo, havia a noção de que tudo o que existia abaixo da lua era da esfera sublunar e o mundo acima dela era o mundo supra lunar, o eterno, o incriado. A lua era o nosso limite. Tudo o que estava abaixo da lua estava sujeito à transformação, à decadência e à morte, diferentemente do que estava acima, um pouco de Platão?
                      Hoje, os cientistas, principalmente a partir do telescópio Hubble, chegam à conclusão de que não existem níveis, nem centros no universo, se a lua está no céu a terra também está, o que significa afirmar que somos filhos do céu, ou melhor, somos filhos  da Luz.
                     Segundo Michel Cassé, o que vemos está ligado às propriedades físico-químicas da nossa retina. O sol, em sua insistência de luz, modulou, educou o nosso olhar. E olhem que poesia: os átomos do sol dialogam com os átomos dos nossos olhos através da linguagem da luz. Mas há uma coisa mais difícil de aceitar ante nossos céticos olhos. O fato de vermos como vemos, possivelmente nos faz cegos para outras formas de ver, ou seja, não quer dizer que outras não existam. Saramago,  prêmio Nobel da Literatura afirmava: Se Deus quisesse que víssemos mais e melhor nos teria dado olhos de águia! Mas vamos, então, ao que interessa: somos filhos da luz! Portanto, gente é para brilhar!
                   A matéria nasce da luz e é acompanhada do seu duplo mortal, ao que parece, a antimatéria. É na dialética entre luz e matéria que a natureza dá livre curso; o big-bang é o acontecimento no qual a luz se materializa.
               Assim, devemos pensar o NATAL como o nascimento do maior  ser de luz, do mais perfeito, mais completo dentre os humanos!  E no que nós transformamos a data? Em uma época de exagerado consumismo, de valores que nem sempre contam, numa festa espetaculosa, como diriam os atores de uma novela de TV que fez muito sucesso no Brasil e que me faz, como os ingleses do século XVIII, afirmar: fez sucesso  no Brasil e no resto do mundo!
                  O Natal foi carnavalizado ou, o que é pior, axezizado. Existe essa palavra? Desculpe-me a Dra. Veraluce Santos do curso de Letras da UFMA. Conto uma história: alguns dias antes do Natal, ao passar pela Avenida dos Holandeses, vi um espetáculo, e não sei bem a palavra a utilizar, digamos, inusitado. Diante de uma farmácia recém inaugurada, um homem de baixa estatura e menor peso, vestido de Papai Noel, com microfone na mão e ponto enfiado sabe-se lá onde, rebolava freneticamente, cantando músicas do tipo Axé. O pequeno magrinho e pardo Papai Noel mais parecia um galinho carioca, de quadril desgovernado e, mal comparado, anti-cover da Ivete, este com galo.
                  O trânsito estava meio engarrafado, embouteillage, para os franceses e eu, com pressa de sair dali, para não ter o constrangimento de ver o ex-bom velhinho erotizar aquele orifício, na boquinha da garrafa. Pensei comigo: é o Natal ou o Carna-Natal-Folia  dentro da época? Foi uma cena lamentável!  
                    Em uma recente pesquisa inglesa (inglês não vive sem uma pesquisa), foi constatado que as vendas de Natal são alavancadas pelas mulheres e que 50% das mulheres aproveitam a época para melhorar o look para as festas do fim de ano. Bem natalino, principalmente para impressionar os chefes e colegas de escritório.
                    NATAL é, entretanto, a comemoração do nascimento do Cristo a nos mostrar que, através Dele, todos nós somos filhos do mesmo Deus. Que responsa! 
                     Pelo menos no Natal, deveríamos lembrar que cada um de nós carrega, em uma simples célula, da unha, por exemplo, todo o código genético; que somos singulares, mesmo tendo o universo todo dentro de nós; que não há nada de idiota em falarmos com animais: nós somos mamíferos e, ao assim fazê-lo, diferentemente do que pensam, estamos ampliando a noção de espaço e comunicação no universo, já  que, por experiência própria, sabemos que os mamíferos possuem sentimentos, afetos, sentem raiva, alegria, etc. & tal.
                  Nietzsche acusa Platão sobre o fato de sermos profundamente alucinados pelo além-mundo, pelo futuro, pelo amanhã. Neste Natal, lembremo-nos de que cada dia basta a si mesmo; se vivermos bem o dia de hoje, teremos fortes possibilidades, também, de fazê-lo amanhã; que somente o agora nos pertence; que o homem é um ser simbólico, por isso curtamos os nossos símbolos e os seus significados.
                    Lembremo-nos de que é NATAL, de que somos filhos da luz e é o nascimento da LUZ na terra, do SAL na terra, da PAZ no universo.
                    Lembremo-nos, finalmente, de que a gente nasceu da luz, para a luz e existimos para brilhar!
                                Ótimo Natal, melhor 2011 e venha o que vier!

Somos da LUZ!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sobre educação e inumanidade


                      Uma seguidora deste blog, que muito me honra com seus comentários, fez, recentemente três perguntas. Uma sobre a lógica dos meus comentários, porque sempre falo a partir de um ou vários autores  e, ainda, por que eu não escrevo sobre educação.
                     A primeira resposta é a de que a lógica é discutir a partir de múltiplas visões, não para justificá-las, mas para deixar bem claro que, existem outras formas, mais contemporâneas de compreender o mundo e que nós, lamentavelmente, teimamos em manter uma antiga visão de mundo, no mínimo, dinossaurica; a segunda é para demonstrar que  é possível falar sobre coisas sérias,  como diz Bergson, sorrindo, de  forma descontraída. O conhecimento científico ou filosófico não necessita ser sisudo. Pode-se falar de forma leve e chamar a atenção para o fato de que as nossas falas do quotidiano, quase sempre, já foram preocupações de grandes pensadores; quanto à última resposta hoje falarei sobre educação, possivelmente de modo diferente daquele aguardado por minha leitora, não para ser reativo, mas para instigar.
                     O filósofo Lyotard tem uma afirmação        profundamente pertinente.  Para ele se os humanos nascessem humanos, tal como os gatos nascem gatos, não seria possível e nem sequer desejável - educá-los. Educamos as crianças porque elas não são como os gatos, naturalmente conduzidas pela natureza, por não estarem programadas para isto, necessitando, portanto das instituições de cultura para fazê-lo.
                     Nessa linha de pensamento e sob  outra visão,  o interacionista  Vygotsky vai nos falar sobre os planos genéticos, e de que o funcionamento psicológico das pessoas não é algo pronto, não é inato, mas sujeito à formação articulada com o ambiente.
                     Haveria, no seu entendimento, quatro entradas de desenvolvimento que possibilitam o desenvolvimento do ser humano. Uma delas, a filogênese trata do homem enquanto espécie. Diz respeito à história de uma espécie animal, a nossa; há, portanto, coisas que podemos fazer e outras que não, por exemplo, o homem não pode voar, para superar essa deficiência, criou o avião, por exemplo. Uma das grandes características da raça humana é a plasticidade do cérebro. Temos um cérebro aberto, flexível, que faz com que o humano seja o animal menos pronto ao nascer e daí, dependendo  do quadro externo, também,  o cérebro vai se  adaptando às necessidades e oportunidades, mais ou menos assim.

                     O que chamamos de humano no homem? A sua miséria inicial na infância quando necessita de todos os cuidados sem os quais pode vir a falecer ou a sua capacidade de adquirir uma segunda humanidade, graças, sobretudo à língua que o faz partícipe de um contexto cultural, humanidade esta que está situada sobre aquela, que a sustenta? E mais, este educar-se persiste mesmo na idade adulta já que tem de exercitar-se permanentemente para continuar convivendo com as instituições, para  conviver com a civilização e, possivelmente, para continuar sua construção de humanidade. Daí, a educação permanente e contínua, as pós - graduações e toda uma série de novas informações para construir uma vida com rastros menores de indeterminação.
                     A criança necessita na sua formação de ter as palavras certas, o benefício do cálculo, a adequação do contexto filosófico e permanece durante um bom tempo como um ser de possibilidades e por isso mesmo refém dos adultos. Educar, portanto, nunca deverá ser apenas um ato de transmitir, pois abarca o estimulo ao raciocínio, o aprimoramento do senso crítico, o fortalecimento das faculdades intelectuais, físicas e morais que a criatura humana já começa a incorporar, afirmam alguns, desde o ventre materno.
                     Convenhamos que isso da ao adulto/professor uma profunda área de manobra ideológica, hoje não mais para o progresso, ele é retrô - embora o retrô esteja na moda - mas para o desenvolvimento do humano e de suas potencialidades.
                             Li, recentemente, em algum ponto da internet e passo aos leitores os seguintes versos:  Somos todos anjos de uma asa só, e só podemos alçar vôo se estivermos abraçados uns aos outros.
                            Essa informação, simbolicamente correta incorpora visões gregárias, não personalistas, ou contemporâneas, aponta para uma profunda dependência dos grupos já formados, para o aceite do não-revolucionário, para a submissão a uma dada ordem já estabelecida, para um status quo; aponta para o fato de que individualmente nada é conseguido, somos anjos - não entramos em conflitos – e vai por aí.  Significa dizer que os interesses do humano já se encontram subordinados à sobrevivência de uma complexidade que não nos é dada a conhecer, sem que a vivenciemos, com a qual não se interage, mas se subordina. Só tenho uma asa... e por falar em anjos lembrei e não perco a oportunidade:
                             Cê parece um anjo/só que não tem asas/ Ai meu Deus, quando asas  tiver/ passe lá     em casa...
ou ainda do Alceu Valença:
                            meu coração tá batendo/ como que diz não tem jeito/ zabumba bumba esquisita/   batendo dentro do peito.....
                            Se tentarmos ser honestos é possível afirmar que a educação por ser invasiva,  não prazerosa, de fora para dentro, tenha algo de inumana. A alegria, a liberdade, a curiosidade iniciais da criança são apagadas em função de uma realidade externa. Esse fato contraditoriamente leva, na nossa sociedade, à formação do ser humano.
                            É nesse momento que sinto saudades do pensamento pedagógico de  Célestin Freinet que, sem possuir formação pedagógica, manteve profundo respeito pelas crianças, registrando suas dúvidas, suas dificuldades, seus sucessos e descobrindo  o universo de suas individualidades. Descobre, também, que tudo o que interessa às crianças está fora da sala de aula, como os rios, os animais e as plantas.
                            E assim, aprendendo com elas, constrói um pensamento de liberdade e participação. Pode-se afirmar, sem medo de errar, a necessidade de se estar  atento  para o que dizem as crianças e mais, o muita gente esquece:criança não é um adulto pequeno. É criança mesmo!
                            Entre nós, normalmente as dificuldades e inquietações que as crianças sofrem no ato da e pela educação, para tornarem-se adultas, inculca algo de sofrimento, de retenção, de controle, o que a faz inicialmente inumana. Não é a toa que Jesus Cristo afirma: vinde a mim as criancinhas, nem que Einstein dizia sempre que há perguntas simples que só uma criança é capaz de fazer e quando a faz,  são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade.
                            É possível que estejamos incorrendo em muitos erros ao educar nossas crianças humanas como inumanas formando para o consumismo exagerado, para a redução de valores que não são repostos, para a homofobia – e vamos combinar que grande parte das crianças é educada por mulheres - em um mundo de valores exageradamente masculinos, convenhamos.
                            Devemos, pois, ter muito cuidado, já que as crianças como um ser de possibilidades pode ser para o que der e vier e o mais importante: elas não nascem programadas  elas não nascem como os gatos...

                Tenham as crianças  uma boa aula!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Meu corpo sou eu!

Tirei um tempo para, com Merleau Ponty, pensar sobre o  milagre do humano na vida e, simultaneamente, de sua  fragilidade e, sob o impacto do espanto filosófico, tentar compreender como este  fenomenólogo francês compreende as relações do corpo-humano-no-mundo.
                       Para ele, um corpo humano está aí quando, está entre vidente e visível, entre tocante e tocado, entre um olho e outro, entre a mão e a mão se produz uma espécie de recruzamento quando se acende a faísca do senciente-sensível, até que um acidente do corpo desfaça o que nenhum acidente teria bastado para fazer...                  
                      Aqui, neste sentido, é o corpo que vê, sente, toca, aperta, é o ponto de chegada e de partida de todo o conhecimento que me é dado a conhecer. Desconsiderado no decorrer da história humana cristã, visto como o lado ruim, na relação com a alma, o corpo nu de Adão e Eva, ligado aos pecados e às culpas do cristianismo é aqui elevado em dignidade e incorpora, como de fato o faz, toda a grandiosidade dos gestos, dos símbolos que cria, das falas que fala, dos olhares que vê e  atravessam o mundo e assim fazendo, o constrói. 
                   Esse ato de construção se dá na tessitura das trocas o que para Roberto Carlos pode ser assim: no seu corpo é que eu encontro/ depois do amor o descanso/ e essa paz infinita/ no seu corpo minhas mãos se deslizam e se firmam/ numa curva mais bonita/ no seu corpo o meu momento é mais perfeito/ e eu sinto no meu peito/ o seu coração bater...
               
                   É o corpo que, como elemento simbólico, no mundo, funciona como a chave do processo simbólico e cria a possibilidade da interação entre os corpos-símbolos e os símbolos por ele criados e decodificados conforme Nicolau de Cusa.
               
                 Pensemos, então, no mundo sem a maestria das mãos de Artur Moreira Lima, a genialidade dos pés de Pelé, a irreverência ou malemolência, sei lá eu, das pernas tortas de Mané Garrincha, da explosão das  pernas de Ronaldo –  o fenômeno – em sua melhor fase, sem a  força e graciosidade das pernas de Ana Botafogo, das pernas e dos quadris de Marta Rocha e na falta da meia polegada que a faria miss universo. Hoje parece que estou vidrado em pernas, na agilidade brasileiríssima do corpo de Daiane dos Santos, chegando um pouco mais perto, na voz emitida com timbre personalíssimo de Fernando de Carvalho, no ritmo e agilidade musical das mãos e pés de Zezé Cassas ao fazer com que o som de um piano, ao seu bel prazer, possa emitir sons como que produzidos por um cravo medieval, no paladar da octogenária e sempre querida Admeé Duailibe. O que seria do nosso mundo, o que seria de nós sem esses corpos...
              
               Ao lembrar, do corpo de pessoas conhecidas, por um momento, escuto na voz de Nana Caymi: QUERO/ tua risada mais gostosa/ esse teu jeito de achar/ que a vida pode ser maravilhosa/ QUERO tua alegria escandalosa/ vitoriosa por não ter/ vergonha de sentir como se goza.... 
              
               Ao conceber esse corpo-sujeito, que se estabelece no mundo numa relação pré-objetiva, pré-consciente, como o sujeito que percebe e compartilha que é fundamental para a consciência, na própria compreensão de Marx. Corpo que percebe e é percebido em seu estar-no-mundo, que chamo de meu é a sentinela que se posta silenciosamente sob as minhas palavras e sob os meus pensamentos. Ao digitar no computador, utilizo o meu corpo, ao dirigir, ao dar aulas e palestras, ao fazer amor ele é o meu instrumental.
              
               O meu corpo, via de regra, obedece aos meus comandos e mais, sabe claramente os meus/seus limites. Se eu quisesse, por exemplo, interpretar como Fred Mercury ou jogar futebol como Neymar, ele logo diria, peraí... isso  não é de sua essência. Ainda que eu treinasse muito, possivelmente nunca chegaria, com este que tenho e sou, à performance desses dois furacões. É possível, e isto compensa que eu possa fazer coisas que aqueles dois não podem ou não puderam fazer. Pois tanto o meu quanto o deles esteve ou está no tecido do mundo, na sua coesão, no seu espaço de fazer e saber fazer certas coisas e não outras.
                 
               Esse meu corpo-sujeito na complexidade do mundo está, dialógica ou dialeticamente, unido com os outros, nas suas ações, nos seus fazeres, nos seus afetos. Essa dimensão (re)constitui a relação sujeito-objeto, visto historicamente este último, quase sempre como uma decorrência daquele, o sujeito. Aqui a noção não é de ambivalência, é de permuta, o sujeito-corpo estabelece relações com o mundo no qual está e ao qual pertence. E, assim, sendo, como em Heideggar, supera o rígido dualismo cartesiano da res cogitans e da  res extensa.
                
               Na contemporaneidade, o corpo começa a ganhar quase que uma nova autonomia nunca obtida na história da sociedade humana. O corpo nunca foi tão malhado, massageado e exercitado, nem na Grécia antiga, como é hoje. Nunca teve tantas próteses, silicones, botox e metacrilatos à disposição. A pele nunca foi tão esticada a ponto da saudosa humorista Dercy Gonçalves, rindo de si mesma, o que é genial, chegou a afirmar que ao sentar no vaso tinha que buscar concentração para encontrar o lugar por onde a urina deveria fluir face a quantidade de plásticas realizadas, do tira e estica.
                 No excesso dessa visão, algumas pessoas quase chegam a afirmar: o meu corpo e eu. Eu prefiro, entretanto, o meu corpo sou eu. Eu o tenho, ele me tem. O que faço por fora é o reflexo do seu dentro, o que o faz alegre, estimulado, magoado é o reflexo do meu fora.
              
                  Com meu corpo vejo e sou visto. Na vida, o mundo visível e que me torna visto é parte de uma mesma construção e quase chego a dizer como Klee, se é que às vezes não o faço: Numa floresta, várias vezes senti que não era eu que olhava a floresta. Certos dias, senti que eram as árvores que me olhavam, que me falavam [...] Eu estava ali, escutando.
                 
                 Pensar corpo com música brasileira dá sempre o maior samba e me faz lembrar a sambista  Clara Nunes ao cantar:
                                      Morena de Angola que trás um chocalho amarrado na canela,
                                     não sei se ela mexe o chocalho ou  o chocalho é quem mexe com ela...

AXÉ

 *Tratar do corpo como o faço não significa ignorar outros aspectos que constroem o ser humano, realizei uma époche ou redução fenomenológica para destacar a sua materialidade.

Amém.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Sobre grandes cidades e noites pequenas

Caros amigos,
                       Hoje inicio com um comentário, inspirado no pensador francês Lyotard  e  - Uma fábula pós-moderna - . Como estariam o Humano e o seu Cérebro,  ou melhor,  o Cérebro e seu Humano, no momento em que abandonavam o planeta para sempre, antes de sua destruição, isso, a  história não dizia. E continua: Assim termina a fábula que vamos ouvir. O sol  vai explodir. Todo o sistema solar, inclusive o pequeno planeta  Terra, transforma-se numa grande nova. Quatro bilhões e meio de anos solares desde o momento em que essa fábula foi contada.
                      No último do blog há  um parágrafo em que concluo assim, após citar vários cientistas importantes:. Esses são pensadores extraordinários que, ainda hoje, são muito importantes para o nosso pensamento, mas de alguma forma, prefiro ficar com Paul Ricoeur quando afirma que: cada autor fala em um tempo, para um tempo.
                A nova descoberta da NASA sobre a bactéria confirma  Ricoeur e os cientistas contemporâneos já respiram mais aliviados quanto à possibilidade de haver mais possibilidades de vida, ainda que de outras formas, quando procederem ao abandono da Terra.
               Possivelmente Prigogine, Rorty, Heisenberg, Bohm, Daniel Bell teriam dificuldade na construção desse acontecimento  - a notícia da NASA – que, no mínimo,  cria novas   possibilidades de compreender a  vida na Terra e a Terra e aponta para o fato de que os autores com quem trabalho estão sinergeticamente afinados com os novos tempos. Explicar a vida ou descrevê-la tem a ver, suponho, com relações de tempo e existência.
                         Para não imaginarem que estou  soturno falarei hoje a partir de uma visão  alegórica que a educadora Francisca Barros prefere chamar de erótica.

Sobre grandes cidades e
noites pequenas

                          Toda noite as cidades mudam de cara, como que travestidas em um muito de indefinido, principalmente se é noite de sexta feira ou sábado e os compromissos inadiáveis, quase sempre, possam ser adiados até a próxima segunda.
                        Aquilo que era a energia ativa, a claridade, as buzinas, os freios nervosos, as pessoas apressadas em roupa de trabalho paletó/macacão que caracterizam o masculino dia, com sua arrogância de macho em cio permanente, passam a ter suas cores moduladas em tons de claro escuro. No fim da tarde, como na letra da canção magistralmente interpretada por José e Elba Ramalho: desço dessa solidão e jogo coisas sobre este chão de giz. Ampliam-se-lhes os espaços.
                       Os botecos/restaurantes da esquina ganham luzes coloridas na fachada, as grandes avenidas revestem-se de uma nova sinuosidade, representadas pelo serpentear dos faróis vermelhos dos carros em lento movimento, como se fossem grandes composições férreas, luminosas e articuladas, a apontar para outros destinos e para múltiplos caminhos, como em Melo, não sei,... só sei que vou por aí...
                       É quase o meio da noite e eu circulo em uma dessas avenidas de uma grande cidade brasileira. Os espaços térreos da cidade alargam suas fronteiras, como se cada luz nas fachadas sinalizassem para um novo real, mais amplo, mais convidativo, um real antes sólido – o masculino dia - agora líquido, se traveste na  feminina noite.
                    Não é à toa que se diz que à noite todos os gatos são pardos, dito de outro modo, a noite possibilita um (re)inventar-se permanente, uma torrente de possibilidades, um ser-se ao acaso, para depois não ser. Nela somos quase tudo o que desejamos. Nela o humano (re/des)constroi na medida de seus projetos, de seus desejos, de suas idiossincrasias. Estar nela é como estar em um caravançará indiano – visto aqui como um lugar de pouso rápido e não como pousada das almas ao longo das encarnações – um lugar de passagem.
                      O claro/escuro que possibilita o pardo, reduz a alturas dos prédios, o que dá aos espaços horizontais a impressão de haverem sido ampliados. No invisível dos edifícios, agora na obscuridade, velados pelo manto diáfano das árvores e das luzes invertidas no sentido das calçadas, estas agora mais visíveis.
                       Mirando para o alto o que vejo são amplos faróis aéreos, ou seja, a luminosidade das janelas que, acima do meu percurso sinalizam como eventuais fragmentos de uma luz que se dá, por inteiro, na horizontalidade e só eventualmente  na vertical, em que as paredes mais altas quase desaparecem como se fossem nuvens a nos alertar que espraiar-se agora é preciso.
                       Ocorre como que uma (re)significação simbólica, em que as árvores, como elegantes deformações, à semelhança de gigantescos bonsais, erguem-se como a buscar Dulcinéias em seus castelos, em cada ponto luminoso lá no alto, acima de suas copas, de seus cabelos, ou de espadas, como poderia ter visto o popular personagem de Cervantes se ainda entre nós estivesse sendo construído.
                       Durante a noite os sons se tornam mais delicados e fluem como que afinados com sofisticado refino, porém espantosamente audíveis, na lenta evolução dos faróis vermelhos que se movimentam em pontes e passarelas que mais parecem bailar ao som da noite, como que transportadas em suspenso, pela fileira de luzes. Durante a noite os gestos ficam mais lentos e mais plenos de significados e o visível aparente, na claridade/obscuridade, parece menos viril.
                     Há como que, em cada esquina, antes povoada pelo vai e vem apressado das pessoas um portal de acesso para um espaço/noite paralelo, uma mescla de garganta profunda e furor uterino que, longe de agredir, seduz, na languidez de promessas não previsíveis, de propostas que, durante o dia, soariam extravagantes e inoportunas, as pessoas parecem mais atraentes, os convites mais tentadores e mais repletos de possibilidades.
                      Nas calçadas as pessoas não andam, desfilam. O clima é temperado e o tempo é, por enquanto, um espaço de promessas, isso até que o próximo dia chegue com sua virilidade suarenta e a cidade endureça e mostre às claras o que ela é, um espaço onde existem poucas fantasias possíveis e como a letra citada já não posso mais vou te jogar num pano de guardar confetes..., isso até chegue uma outra noite quando, de novo, será sempre possível sonhar e sonhar-se.
Boa noite!