sábado, 13 de novembro de 2010

Há sapo e cobras demais...

Amanheci hoje pensando ou inspirado em Rorty, ao tentar compreender o mundo, através de uma outra visão filosófica, pouco tradicional, dirigida para Eros, mais libidinal, que se realiza, ao não se realizar ou, ao se realizar, decepciona e por isso é melhor que não se realize,  ou como  Lipovetsky que vê o mundo na perspectiva  da decepção de uma profunda languidez, sem sonhos de progresso. Essa visão de mundo tem feito, segundo diversos autores, que os mais jovens naveguem nas visões tradicionais e formalistas sem o perceberem, apenas, possivelmente, confundidos com a mudança das configurações visuais e das novas construções representativas, não verdadeiras, seus simulacros.
Sabemos, e parece que sabemos mesmo, que as nossas histórias ou mesmo as nossas fantasias perdem sempre em qualidade, ao serem realizadas. Suponho, posso dizer de forma bem popular: na prática, na realização, as fantasias são outras. Outras? Ou são as mesmas só que com os atropelos materiais que as levaram à realização? Não sei. Mas que não são, não são. Isso eu sei.
É de trivial conhecimento que as coisas que desejamos levam o nosso próprio modo de ser, mesmo quando o espaço de (des)temporalização do espaço e do tempo social é coletivo. Utilizo nessa linha o exemplo do jeans. Normalmente, nas universidades, nas faculdades, nos encontros casuais, uma grande maioria o use, quer de meninos, quer de meninas, homens e mulheres usam jeans.  Essa é uma tendência ocidental. Mesmo assim acontecendo, é sempre difícil encontrar jeans exatamente iguais. Eles sempre trazem um pouco do que somos, na cor, no detalhe ou, como preferem os mais contemporâneos, na customização, ou seja, são iguais e diferentes, simultaneamente.
Este é apenas um exemplo. O mundo em que vivemos tem se tornado cada vez mais frágil e mais errático. A tendência é fugir de uma só forma aparente de vida. Nossos pais e avós, orgulhosos, afirmavam que, durante cinquenta anos, serviram a apenas uma empresa e quase sempre em um mesmo setor. Os modelos hoje parecem ser diferentes. Desculpem-me, se pareço brincar com coisas sérias; o projeto de vida parece estar sendo customizado pela insustentável leveza do projeto. O tempo destinado ao trabalho é ampliado, sempre que possível, para o tempo do lazer. Não é à toa que, em quase todo o mundo, há uma luta organizada pela redução das jornadas de trabalho. Não estou defendendo ou atacando tal processo de luta; apenas constato.
 Os atuais projetos profissionais tendem a ser cada vez mais prazerosos. Há uma fuga do trabalho com o suor do rosto – orgulho antigo. Rosto suado? Tô fora, eu o prefiro climatizado. A tendência pela escolha profissional, quase sempre, tem base nos sonhos que possamos realizar com a renda auferida ou no surgimento das necessárias adequações ao mercado profissional, este cada vez mais flutuante.
Ao caminhar por uma pequena cidade como São Luís, há pouco tempo, saberíamos informar a moradia de todas as famílias, ricas, tradicionais ou mais conhecidas. A moradia era um ponto de referência familiar. Mesmo em São Luís, o lar, como o conhecíamos, é uma nostalgia do passado. Hoje, se seguirmos o pensamento de  Bauman como o faço,  a casa, o apartamento, o loft,  ou o apart. são pontos de referência em um espaço planetário, não apenas de barro ou ferro e tijolos, mas significam uma outra forma  de nostalgia/referência: quando a porta se tranca por fora, ali é o meu espaço no mundo, o lugar para onde devo voltar após as viagens, os passeios, os devaneios; quando a porta se fecha por dentro, passa a ser o lugar de onde devo  pensar e desejar novas sensações, tão logo me seja possível fugir dali.
Estes que entram e saem, que estão em movimento, são os deslocáveis pela globalização. Os outros são fixos, estão presos a uma imensa rede de serviços a que, se não estou enganado, Adorno identifica como indústria da cultura – já que hoje quase tudo é cultural – e como em toda indústria, ali estão os seus trabalhadores.
Para identificar o em movimento, o descolado e aqui a palavra surge perfeita, o atual processo, agora em massa, exige do que não está fixado, que lembre o velho ditado popular: pedra que não pára não cria limo. O lance agora é não criar limo, o que agora já não é bom para uns e extremamente necessário para outros. O melhor para o presente tempo é estar identificado com: cobra que não anda, não pega sapo, ou ainda, mais eloquente: Deus dá asas à minha cobra.  Há sapo e cobras demais... Ufa!
Não é à toa que, em sites de relacionamento, a qualidade, ou melhor, a quantidade da milhagem identifica os que mais se movimentam em fotos e mensagens, dos que não.  A exagerada flexibilidade destes tempos cria uma espécie do que Bauman chama de insegurança ontológica, e Giddens identifica como uma ameaça planetária a ser disseminada em todas as áreas da vida social.
E só para não dizer que não fui, que estou fixado, estou teclando de longe, de muito longe, de Acapulco, Ponta do Farol, na paradisíaca cidade de São Luís. Venham conhecê-la enquanto ela existe; depois, só o tempo dirá. Pode ser tarde demais...  
 Bye.

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